O final de Eu, Você e Toda Uma Vida:
por que a Sang-yeon agia daquele jeito?

Quem está assistindo Eu, Você e Toda Uma Vida, na Netflix, uma hora se pega perguntando: "por que a Sang-yeon age assim?".
Até o final, é difícil mesmo entender o que se passa na cabeça dela — e no meio do caminho tem trechos bem sufocantes.
Então hoje eu resolvi fazer uma leitura do final da série pelo ângulo das atitudes da Sang-yeon.
Antes de tudo: como termina?
A Eun-jung acompanha a Sang-yeon até o fim na morte assistida.


A história em si é simples.
A Eun-jung e a Sang-yeon se conheceram aos dez anos e chegam aos 43 sem se falar fazia muito tempo — a amizade tinha se rompido lá atrás.
E é essa Sang-yeon que reaparece na vida da Eun-jung com um pedido: que ela vá junto para a Suíça e a ajude a morrer.

A Sang-yeon tinha recebido um diagnóstico terminal.
Mais do que prolongar a vida, ela queria partir enquanto ainda estivesse lúcida, em condições de ser lembrada de um jeito bom.
Ela não tinha mais família nenhuma. E o procedimento exige alguém que assuma esse papel de acompanhante — por isso ela pediu à Eun-jung que fosse essa pessoa.



Alguém some da sua vida, reaparece e a primeira coisa que diz é "me ajuda a morrer" — claro que a Eun-jung não ia concordar.
Só que, ouvindo tudo o que a Sang-yeon tinha para contar sobre esses anos, ela acaba aceitando.
E assim a Eun-jung ajuda na morte assistida da Sang-yeon e fica ao lado dela até o último momento.
As atitudes da Sang-yeon que ninguém entende
Foram 30 anos com a mira sempre na Eun-jung.

Começa no quarto ano do fundamental, quando as duas tinham uns dez anos.
A Sang-yeon vira representante de turma — cargo que, na escola coreana daquela época, vinha com autoridade de verdade — e bate com a régua na mão da Eun-jung e do colega que sentava do lado dela.
Na véspera de uma prova, já com uns 14 anos, ela também joga na cara da Eun-jung que a amiga estava a fim do irmão dela, o Sang-hak, e que não ia dar em nada porque ele já tinha namorada.
Era a briga dela com o irmão sobrando para a Eun-jung.


Aos vinte e poucos, ela mentiu para a Eun-jung numa história envolvendo o Kim Sang-hak, na época namorado da Eun-jung.
Em coreano o sobrenome vem antes do nome. O Kim Sang-hak (Kim Gun-woo) é o namorado da Eun-jung, diretor de fotografia; o Cheon Sang-hak é o irmão mais velho da Sang-yeon. Sobrenomes diferentes, mesmo nome — os dois se chamam Sang-hak mesmo.
Aí entrou dinheiro no meio e, por orgulho, foi a Sang-yeon quem cortou relações primeiro: "nunca mais nos vemos".


Aos trinta, piora.
Ela monta uma produtora e toma para si o Melodrama de Juventude, o roteiro que a Eun-jung tinha escrito.
E quando o Kim Sang-hak, que reaparece como diretor de fotografia, tenta finalmente se declarar à Eun-jung, a Sang-yeon chega bêbada, praticamente implorando para que ela não fique com ele. A Eun-jung acaba recusando o Sang-hak.


Com o casamento, a mesma coisa.
A Sang-yeon casou com o diretor Han Jae-jun, mas o motivo era outro: se livrar da última frase que a Eun-jung tinha dito a ela.
Não durou nem um ano de convivência: o marido pediu o divórcio, e o papel só saiu seis anos depois.
Você entendeu todas essas atitudes da Sang-yeon? Eu ficava mesmo pensando "mas por que ela faz isso?".


Afinal, por que ela agiu assim?
Ela tinha inveja da Eun-jung — e por isso empurrava a amiga para longe.
Para a Sang-yeon, a Eun-jung sempre foi motivo de inveja: era a menina que tinha aquilo que faltava nela.
Tinha inveja porque as pessoas gostavam da Eun-jung, e inveja do que ela escrevia.
Foi assim também quando o irmão, o Cheon Sang-hak, morreu: ele deixou a câmera para a Eun-jung e não se despediu nem da própria irmã.
Até o próprio irmão escolheu a Eun-jung. Dá para imaginar o tamanho da inveja.


E não foi só a família: o Kim Sang-hak, que ela guardou no coração por anos, virou namorado da Eun-jung bem na frente dela.
Ou seja: tudo o que a Sang-yeon queria pertencia à Eun-jung.
Foi esse acúmulo — gostar da Eun-jung e ter inveja dela ao mesmo tempo — que produziu as atitudes que a gente não consegue entender.
Talvez, justamente porque a Eun-jung era a pessoa de quem ela mais gostava e, ao mesmo tempo, o alvo da inveja, cada escolha da Sang-yeon tenha machucado ela própria também.


A inveja dela foi crescendo sem freio, e ela acabou cruzando uma linha que não devia ter cruzado.
A Sang-yeon carregou a vida inteira uma frase que a Eun-jung disse quando as duas tinham trinta anos:
Para a Sang-yeon, aquilo virou uma maldição que a seguiu por toda parte.
O casamento, o sucesso — tudo foi, de certa forma, uma tentativa de apagar aquela frase.

No fim, ela conquistou dinheiro e reconhecimento, mas perdeu a saúde.
Passou a vida tentando vencer a Eun-jung — e gastou nisso tudo o que tinha.
Ainda assim, no fim, ela se arrependeu de tudo aquilo e voltou a procurar a Eun-jung.
Separei as dúvidas que costumam aparecer.

Quem era o marido da Sang-yeon?
O diretor Han Jae-jun, que aparece no episódio 13 — uma participação especial do ator Jo Hyun-chul. Só no episódio 14 é que se revela que ele tinha sido marido da Sang-yeon.
O Kim Sang-hak e a Eun-jung voltam a ficar juntos?
Não. Eles se separaram quando tinham vinte e poucos anos e se reencontram aos trinta, com ele como diretor de fotografia, mas a relação não recomeça.
Por que o irmão, o Cheon Sang-hak, partiu?
Na série, o irmão tira a própria vida. O estopim foi a Sang-yeon ter mostrado o diário dele para a mãe dos dois, e ela se culpou por isso a vida inteira. (Se quiser saber mais sobre ele, falei do Cheon Sang-hak neste post.)

Eu passei a série inteira sem entender as atitudes da Sang-yeon.
E, mesmo organizando tudo isso aqui, a sensação ficou dividida: ora eu penso "ah, dá para entender", ora penso "mas precisava chegar a esse ponto?".
Com a Sang-yeon do passado eu não consigo me identificar.
A Sang-yeon do fim sabia o que tinha feito — o que, para mim, ainda não basta para perdoá-la.
Só que a Eun-jung, ao contrário de mim, aceitou a Sang-yeon.
E você — conseguiu se identificar com as atitudes da Sang-yeon?





